segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Síndrome do membro fantasma




Música: Crywolf - Weight
Nota da Autora: Texto antigo porque minha cabeça não funciona mais.

-x-

- Como um amputado.
- Hã?
- É. Isso mesmo que você ouviu. Eu me sinto um amputado, mas não do jeito negativo.
- Mas, por quê? Entre tantas metáforas para escolher por que justo essa? - As latas vazias já estavam amassadas e se misturavam com as garrafas geladas e o cinzeiro já bem sujo em cima da mesa. Um deles brincava com uma tampa entre os dedos.
- Quando você sofre um acidente e tem que retirar um membro é normal ter como “sequela” essa síndrome. Por mais que você veja que uma de suas mãos, braços, pernas ou pés não esteja mais lá, você ainda sente como se o seu corpo estivesse completo. Como antes. Em alguns casos você chega até a sentir coceira ou dor no lugar onde estava seu membro.

E foi então que o outro entendeu. Era o vazio que o amigo sentia. A ausência que previamente fora preenchida por 3 anos. O calor, o conforto, a companhia e até mesmo as brigas. Não estava mais lá. Fora removido cirurgicamente e sem anestesia, como nos procedimentos médicos de antigamente.

Ela. Ele sentia falta dela.

O outro permaneceu em silêncio num sinal para que o amigo continuasse. Sabia o quão difícil era para o outro conversar sobre esse tipo de coisa. Ocasião rara e que não deveria ser interrompida com conselhos retirados de filmes ou baladas românticas dos anos 90.

- Era bom sabe? Você acorda cedo, vai trabalhar, aguenta merda dos outros durante horas, enfrenta a hora do rush, passa fome, cansaço e raiva. Você gira a chave na fechadura, vira a maçaneta da porta e tem alguém ali. Tão cansado quanto você, tão puto com terceiros quanto você, tão exaurido e desesperado por uma refeição decente quanto você. Sabe, traz uma espécie de conforto sádico.
“Por um lado você fica contente de ver que não é o único que se fodeu o dia todo. Mas pelo outro, você se sente bem porque tem alguém ali quando você chega morto em casa. Traz felicidade.”

Ele deu um trago no cigarro e exalou a fumaça olhando o cômodo em que se encontrava. Tudo parecia vazio. Até sua voz projetava um eco que reforçava o isolamento e amplitude do lugar. Era uma casa muito bonita.

Uma casa pra dois.

Três ou quatro futuramente.

Mas isso, ele nunca iria saber.

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Batismo de piche



Imagem: Me-za-me-ro

Batismo de Piche. É um batismo de piche. Um líquido viscoso que desce pela minha garganta, uma substância pesada e fedorenta que se adapta a minha pele. Uma armadura maleável e escura. Piche. Fecho os olhos, junto as palmas da mãos e oro para um deus que não existe. Escuto gritos de louvor de fiéis que não sabem o que dizem. Vejo transeuntes curiosos, uma calçada que se derrete a meus pés.

Um buraco negro que se forma perante de mim. Sinto o pastor de dedos ocos tocar minha testa, me abençoando por algo que nunca esteve sob meu controle, para um silêncio cuja minha voz nunca pertenceu. Uma correnteza sem direção e com fluxo mutável. Sinto os ombros doerem, o piche queima e minha alma transcende para um ceu estrelado de falsos profetas. 

Lembro-me por um momento dos conselhos que me deram, das promessas que fizeram, das minhas próprias ilusões, das minhas mentiras, do cobertor de fios inflamáveis que joguei sob a cabeça para me proteger de um fogo que não exala calor. Um fogo que não emite som, que tem presença, que sorrateiramente incendiou até o último dos meus cabelos.

Não consigo respirar. Não ouço nada, não vejo nada, não consigo falar. Minha língua curiosa devora o piche aos poucos. Um gole de cada vez, um gosto distinto, forte, que trava minha mandíbula. Eu bebo o piche como um todo. Meus poros se dilatam, meus olhos ardem e as lágrimas começam a fluir. Um duto que por muito tempo pensei estar seco. Um duto que usufrui mais do que gostaria.

Ainda escuto os fieis do lado de fora. Ainda gritam por salvação, ainda urram por um sinal de deus, por um milagre. Não sinto os pés. Não sinto o chão e só agora percebi que vim me enganando com uma falsa sensação de solo nos calcanhares. Meu corpo flutua mas não me sinto leve. Brilhante. Escuro. Vejo galáxias, vejo promessas de um amanhã melhor, vejo minha força de vontade me obrigando a respirar o piche que preenche meus pulmões.

Uma ânsia de vômito que não provoca contrações no diafragma, uma fadiga que me faz mover montanhas, dedos ocos na minha testa, uma falsa jura de sobrevivência no meu peito. Uma calúnia de que vou ficar bem. Aleluia, irmãos e irmãs. Aleluia.

Consigo sentir as células de pele morta se espalhando pelo rio de piche no qual mergulho, vejo o ceu desaparecer dos meus olhos. Uma névoa cinza e grossa. Inspirando e expirando. Quantas vezes fui para a cama com o corpo pesado? Quantas vezes perdi o sono virando e revirando acontecimentos? Procurando pelo bug no sistema que pode reverter um processo irreversível?

Meus dedos se movem no piche, passeiam pela substância como ar do lado de fora de um carro em alta velocidade, sinto as lágrimas do pastor no meu rosto coberto pela armadura. A vibração de sua voz move meus nervos, o poder, a certeza, a crença. Crer. Fé. Redenção. Um processo de renascimento de uma calcificação fajuta.

Um novo deus. Um novo santo. Uma nova fé. Uma perdição de embalo curto e piscante. Um otimismo que aos poucos ganha forças e me faz movimentar os pulmões. Consigo nadar. Consigo mover o corpo no novo ambiente. Adaptável. O ser humano é adaptável. É a Lei da Seleção Natural.

Por vezes me pergunto como conseguimos sobreviver por tanto tempo.

Meus dentes doem. As gengivas sangram e mais lágrimas percorrem a superfície lustrosa e negra que é meu rosto. Ergo as mãos em prece para o Deus que não existe, abençoo o pastor que me moveu até o piche, agradeço os fieis pelas palavras de louvor que não tem som. Consigo ver as galáxias se movendo a uma velocidade absurda. Um redemoinho de luzes e poeira de estrelas mortas.

Consigo beber o mundo. Minha alma me vê do outro lado do líquido. Vejo minha própria mente. O emaranhado de arame farpado que não machuca, uma pele tão dura e grossa que só consegue derramar sangue se rompida pela lâmina certa. Uma lâmina mutável e invisível. Um paradoxo de sentimentos que afogam minha consciência.

Afogar.

Estou me afogando.

Dedos ocos acariciam meus cabelos de cor questionável. Unhas frágeis e amarelas marcam o sinal do redentor em minha testa. Uma virgem maria de moral dúbia. Um criador que abandonou aquilo que nunca passou por seu córtex. Salvação. Jesus não morreu por meus pecados, jesus não voltou por mim. Vi os pregos em suas mãos e pés, vi a lança em suas costelas, a coroa de espinhos cravando a carne. Vi o sangue que pinga em minha língua.

Nectar sagrado.

Uma missa sem ninguém.

Um teto que desaba na cabeça de um fiel fervoroso.

Piche.

É um batismo de Piche.

Não preciso voltar para a superfície. Não preciso mais respirar ar puro, não tenho guelras, muito menos barbatanas. Tenho ferro. Tenho aço. Tenho circuitos. Tenho fios para arrancar, placas para destruir e sistemas para reconfigurar. Formatar minha placa mãe. Deletar. Excluir. Excluir. Excluir.

Reformulação sempre foi uma habilidade minha. Redigir o que já foi dito e repetido. Moldar o imutável, mover o imóvel. Criar o criador. Meu próprio deus. Minha própria fé. Meu próprio batismo, minha própria salvação. Minha redenção perante um pecado nunca cometido. Um clamor de fé e misericórdia perante um júri que nunca me viu. Um júri que nunca criei, que nunca desejei. Que nunca esteve lá.

Galáxias. Ainda consigo ver as galáxias. Tocá-las, engoli-las, apertá-las na ponta dos dedos. Dedos ocos. Com unhas amarelas de frágeis de tanto fumar cigarros. Gravando um sinal de salvação na testa de mais uma pobre alma derrotada. Uma alma humilhada, esquecida, atropelada pela onda de sua própria consciência. Que deus esteja convosco, oh lamúria, o Senhor esta no meio de nós.

Escuto os gritos de meus seguidores, os ouço clamando por uma oportunidade, uma nova chance de um futuro que nunca lhes pertencerá. Um passado que não sabe quando desistir. Uma memória de alguém que já morreu. De uma existência momentânea e de brilho oscilante. Minhas células de pele morta flutuam pelo ar, meus cílios colados na substância dura e resistência que um dia fora macia e quente. Uma pele tão dura e grossa que só a lâmina certa a faz derramar sangue.

Meu sangue. Minha fé. Meu pastor. Minha religião. Minha promessa de um amanhã melhor. Minhas palavras de conforto. Tão ocas quanto meus dedos quando as ouço. Tão desesperadas quanto meus fieis. Tão curiosas quanto meus transeuntes. Uma alma teimosa, cuja chama varia de tamanho e cor, o sétimo dia que o criador negligenciou.

O vento endurece minha pele e consigo ver as rachaduras se formando, folículos tão leves quanto um sopro. Voando diante dos meus olhos. Estrelas escuras sem direção ou ordem. Sinto o corpo leve. Piche entre os dedos, molhado, frio. Um batimento cardíaco capaz de acordar o mundo. Um farfalhar de asas meticuloso e caótico. Um grito de libertação. Um boneco explodindo em energia nuclear.

Meu pastor chora, sinto o sangue do redentor pulsando em algum lugar do universo. Folhas secas ganhando vida, verdes, brilhantes, orvalho da manhã inundando a seiva do florescer. Frescor de sabedoria. Meu corpo boia calmamente, não tenho mais medo. Não tenho mais receios, dúvidas, temores, vozes sussurrando à meia noite. Ponteiros de relógio que há tempos estão enferrujados.

Me sinto livre. Dissolvendo em meio a todo o piche. Um sinal queimando em minha testa, um sorriso por entre bolhas de ar, uma despedida. Alívio. Não tenho peso. Não tenho consistência. Não tenho densidade. Não tenho DNA. Um líquido preto e viscoso que desce ela minha garganta e me faz rejuvenescer sem diminuir dígitos, uma substância pesada e de odor marcante que inebria meus olhos e me faz enxergar os segredos do universo.

Dedos ocos capazes de agarrar o que já fui. O que já vi. O que nunca serei um dia.

Um batismo de piche. Um milagre no molde de um pesadelo de ruído e agressões sem toque. Uma pele negra, grossa e tão dura que só a minha lâmina a faz derramar sangue. O sangue de Cristo. O Cristo que resolvi ser.

Meu próprio salvador. 

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Calcificação




Música: Yubiki-Genman
Autor: Deemo OST (Joguem esse jogo)

-x-

- Eu queria escrever alguma coisa bonita. Alguma coisa que tocasse as pessoas, que as movesse sabe? Alguma coisa que tivesse impacto, mas que fosse sutil e delicado. Algo saído das teclas de um piano, entende?
- E por que não escreve?
- Não é tão fácil assim. Escrever não é só mover um caneta em uma folha de papel ou dar ordens pros seus dedos em um teclado. É muito mais profundo do que isso.
- E o que te impede então?
- Eu não sei.
- Medo?
- Medo do quê?
- De se abrir. Escritores precisam expor suas feridas toda a vez que tocam papel. Não é isso o que dizem?
- Por mais poético que soe, sim. É assim que a coisa funciona. É uma loucura. Uma folha de papel, sua mão e tudo o que vive e respira dentro da sua cabeça.
- Mas então o que vem matando o seu ecossistema?
- Eu sinto um vácuo dentro de mim. Distância. Inércia. Engraçado sentir tudo isso agora que finalmente posso me aceitar como pessoa, defeitos inclusos e tudo mais.
- Isso não tem a ver com auto aceitação. É um aspecto completamente diferente. Estamos falando sobre criação e não renascimento.
- E não seria a criação parte do renascimento? Um novo ser, uma nova forma, um novo jeito, um novo espírito. Uma nova pele para um ente que morreu.
- Você se sente perdida. Sem rumo. Deslocada. Sozinha?
- Sim. É um território novo para mim. O chão que passei a minha vida toda pisando sumiu dos meus pés.
- E não é esse o maior sonho do ser humano? Poder voar sem usar máquinas? Ter suas próprias asas sejam elas visíveis ou não?
- Não me sinto voando. Me sinto parada no ar. A mercê das correntes de vento.
- Talvez você esteja sentindo a leveza por causa da falta de gravidade.
- Como assim?
- Seus tornozelos, seus pulsos, sua garganta e o seu coração. Eles não têm mais correntes. Não tem mais pesos ou grilhões que a prendam no chão. Ninguém mais ri de quem você é.
- Eu tenho medo de me expressar a respeito disso.
- Retaliação? Repreensão? Mágoa?
- Muito. É muita coisa pra dizer em tão pouco tempo, com tão pouco espaço. São tantos anos com uma voz no meu ouvido me dizendo o que fazer ou não.
- Você tem medo de cometer algum erro.
- Não seria a primeira vez.
- Mas você aprendeu dessa vez.
- Aprendi, No entanto, o medo permanece lá. É como responder para os seus pais pela primeira vez. Sabe quando a raiva te cega e você abre a boca sem pensar nas consequências e na força das suas palavras?
- Eu vivo na sua cabeça. Eu sei de tudo sobre você. Até sobre o que você recentemente começou a conhecer.
- É isso. Por várias vezes eu me imaginei nesse tipo de situação, geralmente após uma tragédia, onde minha possível explosão de raiva agravaria mais a situação. Um cenário triste, pesado e muito delicado. Uma intensidade sutil. Como estar no abismo entre viver e sumir.
- Já vi essas cenas. Você anseia pelo alívio. Por abrir mão das amarras. Pela liberdade que vem com essa explosão.
- Conversei tanto com você sobre isso. Observamos por tantas vezes um desenrolar fictício de um cenário longe de acontecer. E ainda assim, sinto um bloqueio na garganta.
- Você passou anos exercendo a auto censura por causa de uma aprovação que você nunca precisou. Anos sentindo vergonha do que você sente, do que nós sentimos, do que amamos e do que vemos a respeito do mundo. Não te culpo por isso.
- Mas eu me culpo. Agora eu consigo respirar melhor. Mesmo com a nicotina nos meus pulmões. Eu me culpo por não perceber antes o flagelo com ocorria dentro de mim a cada vez que desviava o fluxo de informação do meu cérebro. A cada vez que fechava meus olhos e procurava na roleta da arma uma personalidade certa para o diálogo.
- Você aprendeu a fingir por medo. Era a única opção viável para você na época.
- Quisera eu saber que no futuro eu teria uma mudança assim. Teria ajudado bastante.
- Eu tenho orgulho de você por sobreviver a tudo isso.
- Obrigada. Também tenho orgulho de mim.
- E o que vai fazer a respeito dessa situação toda?
- Não sei. Essa clausura não me incomoda tanto. Essa distancia, esse afastamento me fez enxergar coisas que eu não via antes. Saí de um detalhe específico e consegui focar na arquitetura completa da ocasião.
- E o que você vê?
- Por mais que doa admitir, por mais antigas que sejam as conexões e por mais presente que seja o passado, eu vejo cura. Vejo melhora, vejo cicatrização.
- Mas ainda doi.
- É como um osso quebrado. Uma articulação fora do lugar. Na parte de fora, na pele, você vê só os hematomas, mas fratura é interna. A calcificação é uma coisa que não se enxerga, um processo de regeneração que você sente na alma. Um tecido rompido é diferente de uma artéria dilacerada.
- Você ainda sangra.
- Sim. Todos os dias. Ainda sinto o gosto metálico na minha boca quando respiro fundo. Porém isso não me impede de levantar da cama, não me impede de melhorar.
- E como você vai estancar a hemorragia?
- Não sei. Algo me diz que ainda vou manchar muitas roupas, que ainda vou passar muitas noites em claro esfregando tecidos em água quente.
- Isso faz parte da vida. Todos nós ralamos nossos joelhos de vez em quando. O que define um ser humano é a escolha que ele faz após o rompimento do tecido.
- Machucados nunca tiraram o meu sono. O tipo de ferida com a qual tenho lidado não existe no mundo real e você sabe disso.
- Eu sei. Só me pergunto qual será a sua escolha a partir dessa queda.
- Levantar.


sexta-feira, 13 de março de 2015

Mudança



Música: Tokyo Ghoul root A 2nd Op

Nota da autora: Desculpem o sumiço. O trabalho está um caos @_@

-x-

Tem horas que eu olho pro ceu e desejo voar. Desejo abrir meus braços e pular do penhasco mais alto que eu conseguir encontrar. planar sem fazer esforço e só sentir o vento bater no meu rosto e o peso do meu corpo e coração se esvair de uma vez só.

Por muito tempo, tudo o que eu mais queria, era me sentir leve.

Sem peso.

Sem culpa.

Sem amarras ou correntes.

Sem ter uma sombra acima dos meus olhos.

Eu mergulho no mar de cabeça. eu cerro as pálpebras e pulo. Na trajetória gosto de abrir meus braços e fingir que estou voando. Gosto do jeito que o mar me abraça e me faz sentir. Não ter os pés colidindo contra o solo, não ter o peso do mundo nos ombros, nem ter a gravidade me forçando a ver o que eu não quero.

Gosto de olhar pra cima e ver o ceu.

Gosto de sorrir.

Agora eu posso sorrir.

Gosto de sentir o movimento do mar me conduzindo para uma direção que pouco me importa no momento porque sei que posso nadar quando quiser e chegar no cais ou na praia que eu bem desejar.

Mas, por agora, prefiro flutuar na água. Ter o mar tocando a minha pele e sentir o choque de temperaturas. Agora eu consigo sentir o frio essa imensidão azul e misteriosa. Não tenho medo dos monstros que habitam suas profundezas. Posso vê-los nadando abaixo dos meus pés.

Eles vão me proteger.

Por muito tempo eu quis ser uma sereia. Quis aderir um novo personagem que me permitisse ver a luz do sol sem derramar uma lágrima dos meus olhos. Mudei de mim mesma várias vezes e criei novas mentiras com tinta para que eu pudesse mover meus braços e tentar voar mais uma vez.

Tentei ser algo que eu não era. Por várias vezes tentei ser volátil e me ajustar ao novo ambiente recusando e rejeitando completamente o que batia em meu peito. Por muito tempo, tentei sobreviver. Olhava para o mar e desejava mergulhar. Via o ceu acima de minha cabeça e me perguntava como seria um dia finalmente pular sem ter medo da queda. Simplesmente abrir meus braços e abandonar a superfície abaixo dos meus pés.

Agora eu vejo o sol e ele sorri pra mim. Vejo as nuvens e elas são lindas.

Sinto a água salgada em meus lábios. Sinto a temperatura da água no meu corpo, os cabelos molhados colados no meu rosto, os cílios úmidos, o suor de uma longa batalha sumindo aos poucos.

Tirei meus sapatos e minha pele. Não tenho mais medo. Sou o que sou.

Cavei fundo dentro de um pântano arenoso e escuro. Percorri cada centímetro e sujei cada milímetro do meu corpo. Vi vagalumes lindos iluminando minha escavação, vi a luz da lua orando por mim lá de cima e a vida ao meu redor. A vida que eu criei.

A vida que sempre esteve dentro de mim.

A vida que eu não conseguia enxergar.

Eu retirei da lama uma menina.

E dela, eu fiz mulher.

Ela mora comigo.

Dentro de mim.

E eu sou feliz assim.

Gosto de abrir os braços e voar alto. Voar longe. Bagunçar meus cabelos nas correntes de ar que me pegam de surpresa, tocar as nuvens frias com meus dedos e aproveitar o arrepio ue elas me causam.

Gosto de abandonar voo e me deixar cair em direção ao mar. Gosto de flutuar perto da superfície.

Eu gosto do que vejo quando me olho no espelho.

Eu gosto do que vejo quando olho pra dentro do meu próprio espelho.

Queria que todo mundo pudesse se sentir assim um dia.

Queria que todo mundo pudesse voar como eu posso. Submergir na água refrescante de um dia quente sem ter medo de inundar os pulmões.

Não tenho mais medo da explosão do meu peito. Não tenho mais medo das flores que crescem dentro de mim. Não tenho mais medo do meu próprio ecossistema. Não tenho mais medo das cores.

Eu gosto de flutuar no mar. Gosto do meu sorriso. Gosto de voar pelos ceus sem me preocupar. Gosto de abrir meus braços porque sei que só vou cair se assim eu desejar. Gosto de olhar para baixo e ver a tela azul que se move e respira com vida abaixo de mim.

Gosto de ver o penhasco do qual me joguei e sinto orgulho e calor em meu peito. Gosto de ver as pedras e meu par de sapatos surrados e velhos relaxando com o vento. Minha lembrança do novo permanece ali. Calma e serena. Minha lembrança do antigo que agora, finalmente pode descansar em paz.

Do mesmo jeito que eu agora flutuo, pairo, plano, deslizo, voo, nado e mergulho.

Gosto da água e gosto do ceu.

Mas, principalmente,

Eu gosto de mim.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Naufrágio digital



Música: It's the right time
Artista: Daichi Miura
Nota da autora: Essa música é o encerramento do anime Kiseijuu: Sei no Kakuritsu ou Parasyte
Nota da autora 2: Assistam esse anime.

-X-

As pessoas esquecem que, assim que o efeito da endorfina passa, tudo o que sobra, é a ferida da flecha do cupido.

Não tenho mais cabelos para cortar, não tenho mais dinheiro para furar meu corpo.

É tão normal assim desistir do amor?

É assim que as pessoas da minha idade se comportam atualmente?

Buscando refúgio e sentimento em um mar de tecnologias neon e com resfriamento induzido?

Eu tenho duas feridas pra cuidar. Duas feridas que eu mesma escolhi fazer. Duas feridas que envolveram terceiros. Duas feridas que vão demorar meses para que se fechem por completo.

Duas feridas que me fizeram chorar.

"Eu vou levando com uma ajudinha dos meus amigos" é o que diz a canção.

Mas esse tipo de ajuda é temporária. Se você não quiser mudar, nada te convence do contrário. Se você não quiser seguir em frente, não há placa tectônica que te faça sair do lugar.

Então eu me mudo. Eu corto meus cabelos, eu pinto as unhas, eu aprendo coisas que já deveria ter aprendido antes.

Eu cuido das minhas feridas.

Eu removo as secreções secas, eu limpo a perfuração, eu tiro corpos estranhos da cavidade e pinço pedaço por pedaço daquilo que impede minha pele de fechar.

No final, eu arranco as ferpas das mãos e rezo para que minha biologia seja privilegiada e pra que o tempo corra com seus ponteiros.

Eu quero que meus circuitos sejam alimentados por minha própria fonte de energia, eu quero que a estática seja de minha autoria. Eu quero remover o zigue zague de dentro do meu sistema e operar silenciosamente meu código binário sem me importar com a tempestade que acarreta o curto circuito.

Não quero uma identificação biométrica dupla, não quero um par de olhos diferentes para cada código, não quero saliva, cabelo, células, átomos ou digitais.

Eu só quero aquilo que é meu.

O que eu possuo, o que eu pretendo, o que almejo e o que vou conseguir.

Eu quero ser a dona da minha própria felicidade, nem que eu precise reconfigurar minha placa mãe inteira para isso.

Eu vou nadar no mar neon sem me afogar e tatuar no corpo as marcas de sobrevivência de cada naufrágio digital.

Vou mentir em HTML o que mentem com o ABC. Vou continuar ludibriando, convencendo, manipulando e extorquindo cada emoção sua, leitor.

É uma troca equivalente.

sábado, 11 de outubro de 2014

Escrevo



Música: Shounen Brave
Autor: Vocaloid IA
Nota da Autora: Sim, eu gosto de Vocaloid

-X-

Eu tenho um turbilhão de pensamentos na minha cabeça. O tempo todo. Sobre coisas que eu nem sei mais o que significam. Eu penso, penso, penso e penso.

Mas acho que minha mente tem medo de papel e caneta.

É como se fosse uma cancela invisível porém palpável. A partir do momento que meus dedos tocam o cilindro de tinta e meus olhos veem as linhas na folha, meus pensamentos fogem.

Toda a estrutura elaborada, todo o jogo de palavras, toda a cultura pop e reflexões inesperadas simplesmente desaparecem e eu fico olhando para a folha de caderno me sentindo estupidamente estúpida.

Talvez em um futuro não tão distante eu consiga diretamente transferir meu fluxo de pensamento para um monitor, sem precisar me preocupar com erros de digitação ou sem me irritar com o fato de que minha mão não consegue acompanhar meu vômito de ideias.

As pessoas acham que escrever é fácil. Terminam de ler um livro e dizem: "Isso até eu consigo fazer!"

O que essas pessoas não sabem, ou ignoram, é que mentir com tinta é um processo lento, e, as vezes, incrivelmente íntimo e doloroso. Tem horas que cada palavra, cada frase, tem o peso de toneladas. Que, as vezes, um único parágrafo, pode te fazer chorar por horas antes de dormir.

Escrever não é somente ordenar as letras do alfabeto de modo legível e compreensível. Escrever é abrir cada ferida, das mais superficiais até as mais recentes e sensíveis, e expô-las para quem quiser ver.

O simples ato de pegar papel e caneta é um desafio. No começo, as palavras flutuam dentro de você, e saem com tamanha suavidade ao ponto de você sequer reparar que está escrevendo. No começo, escrever é tão fácil quanto passar as mãos nos próprios cabelos, tão fácil quanto abrir um sorriso ao ver um filhote.

Minhas ideias são arredias, ariscas e desconfiadas. Elas desaparecem ao primeiro sinal de movimento, ao primeiro indício de que eu talvez vá prendê-las em uma folha de papel ou em um documento no meu computador. Minhas ideias têm medo do compromisso que esse conceito todo significa.

E eu também.

Já ouvi mais de uma vez que eu levo jeito pra isso. Que isso que eu faço é a manifestação de um dom (Se você trai seu dom, você trai a si mesmo), só que o que essas pessoas não sabem é que essa habilidade vem com um preço.

Chame de bloqueio criativo, chame de auto crítico ou chame de vergonha. As vezes, e com as vezes eu quero dizer boa parte do tempo, a suavidade vai embora. E o fluxo sutil vira uma superfície saliente, àspera e pontiaguda. A princípio, essa onda de caracteres, letras, pontuação e estrutura não flui. É como remover uma farpa de madeira grande do dedo ou até mesmo apertar uma espinha dolorida.

Você precisa forçar para sair.

E doi.

Por vezes mais do que você pode suportar.

As vezes o sangue coagula na veia e você morre. As vezes você tropeça, cai e tem muita vergonha de levantar e continuar andando. As vezes você percebe que seu cabelo está uma bagunça só depois de sair de uma reunião importantíssima com os futuros sócios da sua empresa.

Mas você precisa seguir em frente, caso contrário, fica louco.

O nó na garganta bloqueia minhas sinapses e faz com que minha mão não se mova por dias, meses e até anos. Porém, uma hora, você explode e nada consegue te segurar.

Há pessoas que gritam no travesseiro, que correm até as pernas desabarem, que dançam até o corpo pedir arrego, que jogam video game até a cabeça doer, que choram até dormir.

Eu escrevo.

Eu movo minhas mãos e dedos até sentir meu peito se aliviando aos poucos. Eu escrevo o que eu sinto, eu escrevo o que eu penso, eu escrevo o que eu quero sentir. Escrevo sobre pessoas inexistentes, existentes e pessoas que eu quero conhecer. Escrevo sobre vidas que eu nunca vivi e sobre situações que eu dia eu quero chamar de minhas.

Eu escrevo.

Porque isso é o que eu sei fazer de melhor.

Porque é isso o que me faz melhor.

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Combustível



Música: Sink
Artista: Iwan Rheon
Nota da Autora: Time Out, vida.

Tem horas na vida que você só precisa de um descanso. Tem horas na vida que você só precisa recostar em um sofá ou ir em uma festa junto dos seus amigos. Conversar sobre temas absurdos na minúscula e superlotada área de fumantes. Tem horas que tudo o que você quer é simplesmente dar risada sem nenhum tipo de remorso.

É difícil não se deixar abater com os acontecimentos da vida. É difícil não ficar triste ou completamente arrasado ao pensar que tem gente da sua idade, ou até mais nova, com uma carreira sólida, um plano de futuro ou com muito dinheiro na conta bancária.

É difícil não deixar os pensamentos advindos da insônia, penetrarem suas defesas e te fazerem chorar. Ás vezes, o único confidente que você tem é o teto do seu quarto às 3 da manhã de uma segunda feira.

É complicado ver tantos relacionamentos dando certo enquanto você não sabe nem ao menos como se sente em relação as notícias do jornal da tarde. Relacionamentos são uma coisa engraçada.

Dois estranhos se conhecem e podem acabar tendo uma família feliz com uma casa na praia e um cachorro saído diretamente dos comerciais de ração. Essa utopia de união estável e gratificante é um conceito que eu acho cada vez mais difícil de se tornar realidade.

É difícil pensar em tudo isso sem se deixar afetar pelas consequências das suas sinapses neurais.

"Sentimentos são reações químicas. São elementos da tabela periódica combinados. São pólvora e faísca dentro de você. Nada disso é real. Sentimentos são ciência."

Uma ciência cruel. Uma ciência que te faz de idiota. Uma ciência que te faz pensar que o impossível é possível e que, no final, o mocinho sempre consegue um beijo da namorada na linha de chegada. Uma ciência que nos permite passar vergonha em prol de reações em cadeia. Reações que você consegue comprar na loja de doces mais próxima.

É uma ciência que só funciona melhor com a ajuda da carne. Um combustível que lubrifica o maquinário feito de músculos, ossos e secreções e o deixa em perfeito estado de funcionamento. Um combustível de dupla finalidade.

Eu culpo os filmes e a cultura pop por tantas expectativas. Muitos dizem que a vida sem amor não é uma vida completa ou que não é uma vida bem vivida. Por que é que cultuamos tanto o amor ao próximo ao invés do amor a si mesmo?

Por que é que, para ter um final feliz, você precisa de uma pessoa ao seu lado para te dizer "eu te amo" todas as manhãs? Por que o conceito de felicidade sempre envolve um relacionamento amoroso com uma outra pessoa? É impossível ser feliz consigo mesmo ou com seus amigos? É impossível olhar ao seu redor, ver que não existe uma outra pessoa ali, e ficar contente com isso?

É impossível ser contente consigo mesmo?

Essa ciência cruel, esse combustível de dupla finalidade e esse conceito de união são meios de te deixar maluco. É difícil não se deixar abater por tudo isso. É difícil não confessar o que sente para o teto do seu quarto às 3 da manhã de uma segunda feira. É difícil não perder cabelos pensando em um plano de carreira e é mais difícil ainda, aceitar que existe alguém da sua idade, ou mais novo que você, que já tem a vida toda na palma da mão.

Tem horas que você precisa de um descanso.

Tem horas que você precisa parar de pensar em toda essa bola de neve que bloqueia sua garganta. Tem horas que você não precisa pensar em nada, só se deixar levar pelo fluxo de acontecimentos. Tem horas que você só precisa tomar um café com os seus amigos, cortar o cabelo, ver um filme com a sua família, sair para comer sua refeição favorita e por a roupa que mais te faz se sentir bem.

Tem horas na vida, que você só precisa de um descanso.